Rosa, Silvia, Rebeca e Maria

 

 

E decidimos ir à Cadaqués, um povoado à 2 horas de carro de Barcelona.

¡Hasta la vista "mesmice"!

E partimos Eu, Virginia, Odete e Lady Fina. 

 

Arrumamos um carro emprestado e emprestamos confiança à Virginia para conduzi-lo: “Agora fecha os olhos e engole o medo”, era o pensamento que rondava a cabeça de Virginia. E só para obedecer o seu "otimismo", ganhamos de presente uma bela tempestade na estrada. Segundo ela, aquela chuva já estava prevista e se fosse por sua vontade, voltaríamos. “Vai meu bem! Dirige aí que infelizmente, hoje não é o dia de nossa morte”. E não era...Tínhamos Gps com indicador de penhasco.

 

Chegamos no único dia de inverno do verão de Cadaqués. Virginia já havia previsto isso também, mas ainda assim esqueceu seu casaco, como todas nós. Pra esquentar, o jeito foi pedir uma garrafa de vinho no jantar, e transformar camisola em cachecol. E quem quisesse que julgasse Eu, Virginia, Odete e Lady Fina. 

 

Comidas e tomadas, nos dirigimos à rua mais badalada da cidade (a única). Paramos em um bar e continuamos derramando vinho "dentro".

E de tão contentes que estávamos por estarmos juntas, nos dispersamos individualmente pelo recinto, em busca de novidade. 

 

Casualmente, nos reencontramos todas na mesma hora e no mesmo lugar: a estagnada fila do banheiro. Sem novidade para contar, observavamos as mulheres entrarem em dupla no toalete. Era cômodo acreditar que estávamos no pedaço GLS da cidade, e não no bar da pá  virada, mesmo ao ver que o povo saía do banheiro falando e gesticulando além da conta. "As pessoas saem, para sair de sí...", gargalhávamos das palavras ébrias de Lady Fina. 

 

A noite morre com um show de Virginia, seu violão, e uma verdadeira ovação de embriagados na praça da cidade. 

O dia nasce com o desaparecimento da bolsa de Virginia.

Ninguém mais que ela, merecia o protagonismo da viagem.

 

Os cabelos de Odete começaram a cair, quando Virginia anunciou que a chave do carro emprestado, estava dentro da bolsa. Ligamos na “emprestadora” e esse pequeno deslize nos custaria cerca de 500€. Resolvi então, ir no último bar, onde havíamos tomado a penultima saideira. Lá, me deparei com um ser de dentes bem feios, otimizando umas mesas no terraço:

 

- Hola, perdona la molestia, ¿has encontrado un bolso aquí esta mañana?

- ¿Hablas español?

- ¿Y en qué idioma te estoy hablando, señor?

- No, solo para saber si iba a ser un monólogo o un diálogo…

 

"Que homem mais estranho...", pensei.

 

- Bueno, ¿Has visto? En realidad fue una amiga mía que perdió por ahí.

- No he encontrado nada, pero si quieres, pasad más tarde y pregunto a la otra chica.

- Gracias. ¿Qué me recomiendas hacer?, ¿Crees que la policía nos puede ayudar?

- Mira, la policía de aquí solo da multas y pasea por la ciudad…

- ¿Hay muchos ladrones aquí?

- Pues, las autoridades llevaron a todos los malos de la ciudad…Y dejaron a los buenos.

- ¿Y quiénes son los buenos?

- Los vendedores de coca.

- Bueno... Muchas gracias, vuelvo más tarde.

- Oye, ¿Cómo te llamas?

- Eu.

- ¿Y tu amiga?

- Virginia.

- ¿Y su apellido?

- Mendez.

- Así se llamaba mi profesora de pintura.

- …Bueno, muchas gracias, hasta luego.

 

As coisas não estavam muito bem. Bolsa perdida, carro inacessível e Virginia desequilibrada... Lady Fina, para não perder sua "fineza", se recolheu e passou mal no hotel, por conta da noite anterior. Odete acendia um cigarro no outro como se a fumaça fosse trazer a bolsa de volta. Virginia ligou para mãe para desabafar e confessou haver perdido seu pertence por estar bêbada na praça, tocando violão na madrugada. "Mas o quê sua mãe podia fazer desde o Acre?", pensei. Então decidi ir ao cibercafé  da cidade, para elaborar um anúncio de procura da bolsa. 

 

A cidade era bem pequena e havia grande possibilidade de alguém ter achado a bolsa, e não saber onde devolvê-la. E enquanto eu imprimia 40 anúncios, recebi uma ligação de Odete para dizer que ela estava na delegacia com Virginia e a maldita bolsa tinha sido encontrada, com tudo dentro.

 

A viagem então voltou a ser viagem. Comemoramos o “achamento” no bar que Dalí costumava tomar seus drinques. Era um ambiente bem interessante, com uma decoração característica do artista, porém a música deixava a desejar. “Duvido que Dalí viesse aqui para escutar coisas do tipo”, disse Lady Fina. O lugar estava infestado das pessoas "boas" da cidade, a maioria saía bem encanada do banheiro.

 

Até que Virginia e suas gargalhadas, anteciparam nossa saída do bar. Odete teve que conter uma moça descontrolada, que com os braços imobolizados, gritava olhando para Virginia: "Te voy a desconfigurar la cara, ¡hijaputa! Vas a reirte en el infierno".

E enquanto eu recolhia nossas coisas, Lady Fina amparava as lágrimas de Virginia, que chorava como se tivesse recém nascido: "Não liga não, Virginia. Essa gente aí, sai estranha do banheiro e sisma que você tá rindo dela... Parece que o banheiro aumenta o ego!". 

 

No caminho de volta, descubrimos mais uma peculiaridade do povoado: a venda clandestina de croissants na madrugada. Era quase uma transação de droga. Tínhamos que entrar por becos escuros, falar baixo e esperar na esquina, enquanto Odete recebia o pacote de croissants pela grade. Ao final, o "perigo" valeu a pena. 

Desfrutamos de um lindo amanhacer, inspiradas pelo arrebatamento íntimo do chocolate. Era o último amanhecer que vivíamos em Cadaqués...

 

Volta silenciosa, silenciosa volta. A transição dos seres. O adeus a “Eu”, “Virginia”, “Odete” e “Lady Fina”. O olá à Rosa, Silvia, Rebeca e Maria.

 

 

FIM