Quando o Siamês passeava pela casa 

E minha mãe ainda estava apaixonada.
Quando a xícara portuguesa repousava
E ainda não tinha sido lançada contra a parede da cozinha. 
Quando meu chouro ainda se curava com um chocalho
E meu pai ainda estava em casa...

 

Mas desde que vi o Segundo e a Hora 
Nascerem de um ventre pontual,
Sempre chego atrasada ou tarde, 
Porque estou demasiado ocupada,
Esculpindo troféus de papel 
Em homenagem a um pretérito que morre a cada instante.

 

O agora me pertence,
Mas o que fazer com tamanha imediatez
E a eternidade de um presente sempre emergente?
Em busca de alívio recorro ao passado 
Que já foi vivido e está pronto,
E me consolo imaginando um futuro que invento,
Porque minha natureza aspira o infinito,
Um sublime espaço-tempo em que caiba e abarque tudo e todos
E nunca me deixe só.

 

Para amanhã quero a xícara inteira,
Meu pai no sofá, 
O chocalho a balançar,
Minha mãe amando
E o Siamês passeando,
Meus pequenos desejos da cultura do ontem
E da incompreensão do tempo,
Criador e homicida de seu casal de filhos
Segundo e Hora.

 

(Ao meu Siamês, Gustavo)

 

"E o tempo levou

Sexta-feira, 08/09/2017, deve ser umas 5 e pouco da tarde. Ouço Milton, Trem Azul, desde o terraço mais alto da parte baixa de Barcelona. Tive que subir até aqui para escrever. Há tempos procuro papel, mas as palavras se recusam a abandonar a mente. Gostam de ocupar espaço inexistente. Como eu, que habito um lugar que não cabe no mapa. Minha existência é movimento... Para descobrir, para desvelar, para contemplar o porque de estar. Não me contento com nada, minha vontade é tanta que não sei se haverá vida para tanto. E o universo me interpreta impecável, continuamente estende mais estrada para o caminho. Deixo o coração bater sem medo. Não importa. Já mataram o meu pai três vezes e na semana passada vi a irmã que há trinta anos não via. O destino sempre me entreteve com estranhos. O teto da minha casa sempre foi o céu. Mas quando escrevo, esqueço do mundo e o espaço é só um conceito que cabe numa estranha eternidade sem teto. Esses terraços que me rodeiam me justificam agora mesmo. Não preciso ocupar para ser porque transcendo quando penso e o infinito vira só essa ausência de fim que transtorna, mas ensina. Eu não defino, eu só decido sobre o que desconheço e levo dentro esse povo sem idioma, que fala sem abrir a boca, seres que colhi nas esquinas do tempo e que me acordam quando o caminho me cansa. Serei amanhã ou já estou sendo? Sinto que nunca comecei nem deixei nenhum vício. Não quero ferir, quero ficar, mas para mim é insuportável pertencer. Sempre fui embora e pela quarta vez que volto meu coração ainda bate como uma criança que descobre a tomada. É inevitável não enfiar os dedos na fonte. Tomada vicia, choca, mas nem sempre mata. E quando me dou conta que sobrevivi, quero mais! Além de onde os dedos da minha avó apontavam para marcar o limite entre o acerto e o erro. Não vá, não passe, não pule! E ao constatar que fui capaz de amar a todos os nãos, finalmente estou em paz. Ninguém nunca quis outra coisa que não fosse o melhor. Esse cheiro de roupa lavada aqui no alto só me faz lembrar dos lençóis no varal da Graça. Meu deslocamento é quase uma fatalidade e tudo o que penso é que hoje mesmo não suportaria escrever sobre nada em concreto...

 

E pensar que tudo é uma questão de escolha, 

Desde quando me levanto

Até quando me deito... 

Não temo ficar para trás,

Mas de virar consequência 

Da decisão dos demais.

 

"Inércia Metafísica