Desde que o cajú despencou do pé e caiu dentro de uma caixa 

 

 

Estou no caminho de volta pra casa e não tenho energia para os meus filhos. A náusea me bateu tão forte que já passou minha estação, mas continuo a escrever para que a náusea passe também. Isso de me jogar no canto do banheiro só pra rabiscar rápido umas palavras, me traz uma saudade da minha felicidade... Aquela que nunca tinha sono e que comia Cajú do pé. Mas faz tempo que mataram o pomar e encima fizeram uma estrada por onde hoje passam caminhões carregados de Cajús dentro de caixas. E quanto a mim, bom, alugaram minha mente para cuidar das caixas e meus pensamentos só são meus de sábado a domingo. Estou cansada de morrer das 9 às 5 para pagar a casa de praia que não será minha.

 

O ritmo não me permite reflexão, mas agora que estou cometendo o pecado de pensar em mim, sofro por ser uma mãe que deixa os filhos todas as manhãs e só volta para buscá-los no fim da tarde. Na verdade não deixo e sim abandono minhas crianças quando subo o elevador das 9. É triste, mas a medida que supero os andares e ouço os últimos ecos de choro dos meninos, respiro fundo e minha cabeça vai se enchendo de caixas. Quando saio do elevador, desço num universo estranho, onde tomo café, almoço e como passas à tarde, enquanto troco informações sobre Cajús com uma máquina.

 

De segunda a sexta, das 9 às 5, resido num pequeno espaço composto por uma cadeira e uma mesa, com uma planta encima que não precisa ser regada, mas que me faz companhia enquanto fico sentada, concentrada e calada, sendo o que não sou. Não posso gargalhar, nem chorar, mas se eu tiver com muita vontade, posso fazer no banheiro. O toalete é de fato o lugar mais espiritual daquele andar, onde as pessoas raramente cagam, mas sempre vão para depositar suas emoções. Outro dia fui lá pra dar uma gargalhada e me topei com uma mulher dançando, que se assustou e se deteve assim que abri a porta (mas eu vi (e ela viu que eu vi!). A mulher ficou sem graça, mas para amenizar o escândalo e demonstrar empatia, lhe sinalizei meu bloco e minha caneta antes de entrar no box, onde ela provavelmente ria ou chorava antes.

 

Outro fato interessante é que do banheiro se pode ver um verde e tranquilo cemitério, e através do vidro da janela costumo contemplar a esplêndida vista... Fico alí observando e pensando: “Estou fazendo todo esse esforço, mas eu vou chegar lá! Paciência, pra quê essa pressa?”. É um breve instante de conforto, afinal não posso romper o contrato de aluguel, “o quê estou fazendo que não estou pensando nos Cajús? Aqui a única coisa que se anbandona é filho!” Então pego um copo de água, bebo minha ansiedade e volto ao meu assento com um sorriso sem dente.

 

Quando o sol se perde entre o vão dos edifícios, me levanto como uma desequilibrada para despencar com o elevador lotado de gente desesperada. Pouco a pouco vou recobrando meus sonhos, amando meus planos e sentindo minhas dores, mas a medida que descendem os andares, descende também meu entusiasmo, e quando alcanço o térreo, já estou demasiado cansada para os meninos: “Não filhotes, mamãe tá acabada, amanhã ela pensa em vocês.” E assim, dia após dia tenho a impressão de que os meninos nunca crescem. 

 

Apesar de tudo, ao sair gozo de um pequeno prazer quando ponho em meus ouvidos Moonage Daydream de Bowie, e escuto ele gritar “I'M AN ALLIGATOR!!!...” É aí que me sinto feliz por acordar depois de oito horas de coma e começo a me imaginar tombando caminhões de Cajú e arrancando todas as castanhas, e me dá uma vontade de gritar! Não que lá encima não dê, a questão é que lá eu tenho que me conter e aceitar minha condição de alugada, mas a sensação é que no 7º andar ninguém nunca tomou banho de mar. Tem dias que eu quero até perguntar, mas hesito porque essa planta, assim como a da minha mesa, é melhor não regar.

 

Mal sabem eles que eu tenho um sonho ainda mais revolucionário do que o banho de mar diário... Tô juntando uma grana pra comprar um terreninho em Vênus, quero cultivar uma horta... Uma pena que tenha que ser em outro planeta só porque hoje, plantar a própria batata na Terra é ser anti-sistema....Sem dúvidas o ser humano me resulta cada vez mais curioso, um animal racional de origem natural, o qual imprescinde do seu meio para sobreviver e vive sem jamais gritar, mas grita quando pousa um besouro no braço...

 

Parece que a linha do metrô vai chegando ao fim. O vagão foi se esvaziando e só agora que me dei conta que estou só... Enfim, hoje é sexta-feira e o rei do VIIº andar convidou todo mundo para sua casa de praia, aquela que pago com a minha morte de segunda a sexta, das 9 às 5. Por sorte esse ano consegui escapar pela janela do banheiro e descer pelo andaime: Caio no cemitério, mas não caio nessa...Cajú no fim de semana? Nem morta! Prefiro é gargalhar com meus filhos encima de um cajueiro em Vênus, e ver o pessoal do 7º sentado na varanda da praia, comendo castanha e procurando disco voador no céu, enquanto os Ets estão justo ali olhando pra cima, pensando que cajú dá em caixa.

 

FIM

 

 

 

 

Since the Cashew fruit fell from the tree into a box 

 

 

I'm on my way home and I've got no energy left for my kids. Already passed my stop, but the nausea has hit me hard and I keep writing in the hope that it too will soon pass. I'm tired of throwing myself at toilet walls, only to scribble a few quick words. It makes me miss my old happiness; the one that never grew tired and used to eat Cashew fruit from the Cashew tree. But it's been a long time now since they got rid of the orchard, only to replace it with a road. A road that today is teeming with trucks, loaded with boxes of Cashew fruit. And as for me, well, they've rented my mind to manage the boxes and my thoughts are only truly mine from Saturday to Sunday. I'm tired of dying from 9 till 5 to pay for the beach house that will never be mine. 

 

The rhythm doesn't allow me time to reflect, but now that I'm committing the sin of thinking about myself, I suffer for being a mother who leaves her kids every morning and only gets back to them late in the day. Actually, I don't leave my children; it's more like abandoning them when I go up the 9's lift. It's sad but, as I climb the floors to the sound of my boys' cries fading away, I take a deep breath and soon my head starts getting filled with boxes. When I step out of the lift I enter a strange universe where I drink coffee, have lunch and eat raisins in the afternoon, while I exchange information about Cashew fruits with a machine.

 

From Monday to Friday, 9 till 5, I reside in a small space comprising a chair and a table with a plant on top, that doesn't need to be watered, but which keeps me company whistle I sit, silent and concentrated, attempting to be something I'm not. I can't laugh or even cry, but if I can't hold it I can do it in the loo. The toilet is without doubt the most spiritual spot on that floor; a spot where people rarely shit, but always deposit their emotions. I went there other day to have a laugh and I bumped into a colleague dancing. She instantly stopped as I opened the door (but I saw her (and she saw that I saw her). The woman was clearly embarrassed, but to soften the blow, I signalled to my writing pad and pen, before entering the same cubicle where she was laughing or perhaps crying, just moments before. 

 

Another interesting fact is that from the bathroom one can see a green and peaceful cemetery, and through this glass window I often admire the splendid view… I stay there watching and thinking: “All this effort… But I'll get there! Patience, what's the rush for?” It's just a brief moment of comfort; after all I can't break my contract. Then I ask myself, “what am I doing I'm not thinking of Cashew fruits?” and I am reminded that the one thing I'm allowed to abandon up there is my kids…So I get myself a glass of water, drink down my anxiety and return to my seat with a toothless smile. 

 

When finally the Sun is lost between the span of tall buildings, I stand up a little unbalanced and plummet down with the lift, crowded with equally desperate people. Bit by bit I recover my dreams, re-establish my plans and feel my pains, but as the lift descends, so does my enthusiasm, and when I reach Earth I'm too tired for my dreams: “No my loves, mum is exhausted, she'll think of you tomorrow.” And so, day after day I get the feeling ‘the boys’ might never grow up…

 

In spite of it all, when the day is done, I still manage to get a little pleasure, letting the sound of Moonage Daydream by Bowie hit my soul as he proclaims “I'M AN ALLIGATOR!!!...” That's when I feel blessed for waking up out of my eight-hour coma and that's when I imagine myself toppling Cashew fruit trucks and tearing-out all the Cashew nuts…And yes, it makes me want to scream! Not that up ‘there’ I don't feel like screaming, the issue is that ‘there’ I must contain myself and accept my own terminally rented condition, but the real feeling on the 7th floor is that nobody has ever bathed in the sea. Sometimes I feel like asking, but I hesitate to avoid being called hippie.

 

Little do they know I have a dream even more revolutionary than a daily swim in the sea… I'm saving money to buy a little plot of land on Venus; I want to grow a vegetable garden… It's a shame I feel I must reside on another planet just because today, if I plant my own potato on the Earth I could be conceived as being anti-system. Not unsurprisingly, the human being becomes ever increasingly curious to me… A rational animal of natural origins, which needs nature to survive and lives without ever screaming, but screams when a beetle lands on its arm. I guess things are quite weird back here…

 

The train appears to be reaching the last stop. I sensed the carriage was being vacated, but only now I do realize I'm on my own… Anyways, today is Friday and the king of the VIIº floor has invited everybody to his beach house (the one I pay for with my weekly death from 9 till 5). Luckily this year I managed to escape through the toilet window and get down to Earth via conveniently placed scaffolding… Cashew fruits also at the weekend? No way! I'd rather have a laugh with my kids, high up in a tree on Venus, watching  the people from the 7th floor sitting on the beach, eating Cashew nuts and looking at the sky in search of a flying saucer, when the ETs are right there, looking up and thinking that the Cashew nuts come from a box.  

 

END

 

 

 

 

 

Desde que la fruta de anacardo se desplomó del pié y se cayó dentro de una caja 

 

 

Estoy en el camino de vuelta a casa y no tengo energía para mis hijos. La nausea me pegó tan fuerte que ya pasó mi estación, pero sigo escribiendo para que la nausea pase también. Eso de tirarme contra el rincón del baño solo para garabatear algunas palabras, me hace echar de menos a mi felicidad… Aquella que nunca tenía sueño y que comía fruta de anacardo desde el árbol. Pero hace tiempo que mataron los frutales y encima hicieron una carretera por donde hoy pasan camiones, cargados de fruta de anacardos dentro de cajas. Y cuanto a mí, bueno, alquilaron mi mente para gestionar las cajas y mis pensamientos solo son míos de sábado a domingo. Estoy cansada de morir de 9 a 5 para pagar la casa de playa que no será mía.

 

El ritmo no me permite reflexión, pero ahora que estoy cometiendo el pecado de pensar en mí, sufro por ser una madre que deja sus hijos cada mañana y solo vuelve a buscarlos al final de la tarde. En realidad no dejo, sino abandono mis niños cuando subo el ascensor de las 9. Es triste, pero a medida que supero las plantas y escucho los últimos ecos de llanto de los peques, respiro hondo y mi cabeza se va rellenando de cajas. Cuando bajo del ascensor, entro en un universo raro, donde tomo café, almuerzo y como pasas por la tarde, mientras intercambio informaciones sobre frutas de anacardo con una maquina.

 

De lunes a viernes, de 9 a 5, resido en un pequeño espacio compuesto por una silla y una mesa con una planta encima, que no hace falta ser regada, pero que me hace compañía mientras me quedo sentada, concentrada y callada, siendo lo que no soy. No puedo carcajear, ni llorar, pero si tengo muchas ganas, puedo hacerlo en el baño. El toilette es de hecho el sitio más espiritual de aquella planta, donde las personas raramente cagan, pero siempre van a depositar sus emociones. Otro día fui allí para pegarme una carcajada y me topé con una mujer bailando, que se asustó y se detuvo así que abrí la puerta (pero yo vi (¡y ella vio que yo vi!). La mujer se avergonzó, pero para amenizar el escándalo y demostrar empatía, le señalé mi cuaderno y mi pluma antes de entrar en el "box", donde ella probablemente reía o lloraba antes.

 

Otro hecho interesante es que desde el baño se puede ver un verde y tranquilo cementerio, y a través del vidrio de la ventana acostumbro contemplar la espléndida vista… Me quedo allí observando y pensando: “Estoy haciendo todo este esfuerzo, ¡pero voy a llegar allí! Paciencia, ¿para qué todo este apuro?”. Es un breve instante de alivio, al final no puedo romper el contrato de alquiler, “¿qué estoy haciendo que no estoy pensando en las frutas de anacardo? ¡Aquí la única cosa que puedo abandonar son mis hijos!” Entonces cojo un vaso de agua, bebo mi ansiedad y vuelvo a mi asiento con una sonrisa sin diente.

 

Cuando el sol se pierde entre el vano de los edificios, me levanto como una desequilibrada para desplomarme con el ascensor lleno de gente desesperada. Poco a poco voy recordando mis sueños, amando mis planos y sintiendo mis dolores, pero a medida que desciendo las plantas, desciende también mi entusiasmo, y cuando alcanzo el terreo, ya estoy demasiado cansada para mis niños: “No hijos, mama está derrotada, mañana ella pensará en vosotros.” Y así, día tras día tengo la impresión de que mis niños nunca crecen.

 

A pesar de todo, al salir disfruto de un pequeño placer cuando meto en mis oídos Moonage Daydream de Bowie, y escucho a él gritar “I'M AN ALLIGATOR!!!...” Es cuando me siento feliz por despertarme de ocho horas de coma y comienzo a imaginarme tumbando camiones de fruta de anacardo y arrancando todas sus castañas, ¡y me entran unas ganas de gritar! No que arriba no me entren, es que allí tengo que contenerme y aceptar mi condición de alquilada, pero la sensación es que en la 7º planta nadie nunca se bañó en el mar. Hay días en que quisiera preguntar, pero hesito porque esta planta, así como la de mi mesa, es mejor no regar.

 

Mal saben ellos que tengo un sueño aún más revolucionario que el baño de mar diario… Estoy ahorrando dinero para comprar un trozo de tierra en Venus, pues quiero cultivar un huerto… Una lástima que tenga que ser en otro planeta solo porque hoy, plantar la propia patata en la Tierra es ser anti-sistema...Sin dudas el ser humano me resulta cada vez más curioso… Un animal racional de origen natural, el cual no puede prescindir de su medio para sobrevivir, y vive sin jamás gritar, pero grita cuando un escarabajo posa en su brazo.

 

…Parece que la línea del metro está alcanzando su fin. El vagón se fue vaciando y solo ahora me di cuenta que estoy sola... Enfin, hoy es viernes y el rey de la VIIª planta invitó a todos a su casa en la playa, aquella que pago con mi muerte de lunes a viernes, de 9 a 5. Por suerte este año conseguí escapar por la ventana del baño y bajar por el andamio: mejor caer en el cementerio, que en esta trampa… ¿Fruta de anacardo en el fin de semana? ¡Ni muerta! Prefiero carcajear con mis hijos, trepada en un árbol en Venus, y ver a la gente de la 7ª planta sentada en el balcón de la playa, comiendo castaña y buscando platillo volador en el cielo, mientras los ETs están justo allí, mirando hacia arriba y pensando que el anacardo crece en cajas.

 

FIN