Fragmentos I

 

 

31 de Júlio, 19:10 – Barcelona - Londres (trecho a "Tolouse")

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E de novo a estrada foi o único remédio. A sede de janela me levou mais uma vez de onde eu estava. A paisagem constante já me cansava... Mas agora que não a vejo no retrovisor, vira dor e me traz saudade. Há cerca de uma hora cruzei a fronteira entre a Catalunha e a França. Há cerca de dois meses cruzei a mesma fronteira numa aventura acompanhada do amor. Quem diria que em breve eu faria o mesmo trajeto sozinha e sem data de volta. A renuncia é dura, mas é o único requerimento para a escolha. E eu escolhi estar aqui. Eu escolhi estar sozinha, e também escolhi fazer essa viagem de ônibus em vinte e seis horas, quando de avião faria em duas. Desejei esse excesso de tédio em que não há mais remédio que olhar a janela e ver os países ficarem para trás. Busquei viver essa reflexão de choque. Tudo aconteceu de repente e o fato de estar aqui agora é filho de um espirro que gritou basta! “Onde não puderes amar, não te demores” me sussurrou Frida Khalo nos ouvidos assim que nasci. Foi quando chorei pela primeira vez. Creio que naquele momento intui que amaria o impossível. Por isso há poucos dias comprei a passagem mais barata para o destino mais longe de quem eu não podia amar. Disse a todos que ia embora por trabalho, é certo, mas no meu mundo o amor é o verdadeiro motor. Ainda assim confesso que estou me cansando de ir embora e começo a aspirar pelo dia em que eu possa ficar e amar... São oito da noite e a luz do dia decai com os quilômetros que o ônibus subtrai.