David Bowie, the man who scaped heaven & hell

 

 

Eu escutei ele pela primeira vez quando ainda era criança, em uma das festas badaladas que minha mãe costumava dar em casa. Lembro dos amigos dela dançando, movendo suas fantasias e enchendo o carpete de glitter. A música dele entrou no meu inconsciente e anos mais tarde, era eu a primeira a colocar Bowie nas festas em casa.

 

Lembro também de um ex-vizinho de quarto que tive em Londres, um polonês de uns 50 anos louco por Bowie. Uma vez estava rolando The Man Who Sold The World a bom volume no meu quarto. O polonês chegou em casa, foi direto para o quarto dele e colocou a mesma música, mas a uma altura absurda. Comecei a rir sozinha no meu quarto até que ele veio e bateu na minha porta: "Vem! Lá da pra escutar mais alto.", e lá fomos tocar guitarras imaginárias.

 

Lembro da única vez que me animei a tocar para um público desconhecido. Ensaiei dias para me apresentar num bar e ao final decidi fazer um show de uma só música, Space Oddity: "Obrigado galera, fim do show!".

 

Lembro da minha despedida para Barcelona quando Let's Dance rolava a máximo volume na Rua Sabará até o interfone tocar, mas por sorte minha mãe disse ao porteiro: "Dá licença, são 5 da tarde" e bateu o interfone.

 

Nunca esqueço da primeira vez que vi o trecho do filme "Má Raça" em que Denis Lavant dispara numa corrida expressionista ao som de Modern Love. Dias depois de assistí-lo caminhava em silêncio com uma amiga a chutar o ar pelas ruas de Barcelona, até que tivemos a idéia de experimentar a cena. Colocamos então os fones de ouvido e saímos correndo até não poder mais. Era uma sensação verdadeiramente idílica como se a realidade tivesse mudado, no entanto era apenas o nosso olhar sob o efeito do amor moderno.

 

Lembro também de trabalhar uma época num escritório e querer morrer o dia inteiro, mas vivia pelo momento quando ía embora e escutava Moonage Daydream, imaginando uma fogueira de toda aquela papelada cuja única função era causar tédio...


São inúmeras lembranças que me levam a escrever e tentar amenizar a partida desse Black Star. Só tenho a agradecer por todas as vezes que ressuscitei com sua música e as tantas mudanças que a sua arte me inspirou. Bowie sempre seguirá sendo o ópio das minhas dores e referência da vida elevada ao infinito. Hoje aqui em casa David Bowie vive a último volume!

 

The world is sold, but everything's alright. Rest in peace on Mars.